Sobre Sustos e Sorrisos

Aconteceu 24 horas depois do parto. O médico entrou no meu quarto e ficou zanzando de lá pra cá cheio de conversa mole. Mas não desconfiei. Ele estava esperando meu marido voltar do jantar para dar a notícia. Para mim, porque meu marido já sabia. Imagina a situação: você, no restaurante do hospital, finalmente tomando um drink com seus amigos. Feliz da vida, celebrando seu primeiro filho. De repente, surgem o ginecologista e o pediatra pedindo para conversar ali fora. Fico pensando no que passou pela cabeça e pelo coração dele. Pior, imagino como ele se sentiu ao voltar para mesa, depois de receber a notícia, tendo que encarar novamente os amigos e o copo de whisky que seguiam com a celebração. Os médicos perguntaram a ele se deviam me dar logo a notícia ou se era melhor esperar o resultado do exame de cariótipo, que confirmaria o diagnóstico. Ele respondeu que preferia contar logo. Não conheço palavras que possam expressar o agradecimento que sinto por esta decisão. Para mim, foi uma grande prova de que somos um casal de verdade, de que meu marido sabe que estamos juntos para o que der e vier e, principalmente, de que ele nunca vai me deixar no escuro. Com 40 anos na cara, ainda morro de medo do escuro.

Voltando ao quarto, meu marido chegou um pouco depois do médico e trancou a porta. Ainda assim, não me toquei. Mas, quando os dois sentaram no sofá e meu marido fez a introdução dizendo “amor, eu e o doutor estamos aqui para…”, entendi tudo. Não lembro exatamente como ele falou. Recordo apenas de palavras soltas: Mateus, talvez, down. Costumo dizer que neste momento fui sugada para dentro de um filme. Tudo ficou enevoado. Não estou usando esta palavra para efeito dramático. É sério. Tudo ficou enevoado e assim permaneceu durante um bom tempo. Semanas.

Naquele momento, eu só tinha duas perguntas na cabeça. A primeira era se a síndrome representava risco à vida do Mateus. O médico garantiu que não. Que ele era muito saudável e, talvez, justamente por isso, nenhum exame pré-natal tenha detectado alterações. A segunda pergunta, eu não tive coragem de fazer. Nem naquele momento e nem nunca. Achei que era uma pergunta muito boba. Um detalhe pequeno demais perto da situação. Fiquei com medo de me acharem fútil, mas o que eu queria mesmo era saber se o Mateus um dia ia sorrir.

Dizem que todo pai e toda mãe idealizam o bebê dos seus sonhos durante os 9 meses da gestação e que, invariavelmente, todos passam, em diferentes graus, por uma coisa chamada frustração narcísica. Porque nenhum bebê nasce exatamente como a gente sonha. Ou ele não vai puxar os olhos azuis do avô como você gostaria. Ou ele vai chorar muito mais do que você imaginava. Não importa. Alguma coisa não vai sair do jeito que você planejou.

Eu nunca me preocupei com a cor dos olhos do Mateus. Nunca perdi um segundo sonhando com um bebê Johnson. Mas eu sempre quis ter um bebê risonho. E, como eu sabia muito pouco a respeito da síndrome de down, tive medo que ela roubasse a única coisa que era muito importante para mim. Depois da saúde, claro.

Hoje, quase sete meses depois, tenho o bebê mais sorridente que já conheci. Ele nunca vai ter ideia do efeito que aquelas gengivas banguelas causam em mim. Ele já está um pouquinho atrasado para sentar. Provavelmente, também vai demorar mais que os outros para andar e falar. Mas eu não ligo. Para resolver isso, temos a fisioterapia e a fono. Estou realizada. Por estar sendo capaz de fazê-lo feliz. E esta é a única coisa que realmente importa.

Texto escrito em abril/2013

Foto: Carol Bastos para Revista Pais & Filhos

 

English Version

About Shocks And Smiles

It happened 24 hours after delivery. The doctor came into my room and stood milling about back and forth full of small talking. But I didn’t suspected anything. The truth is: he was waiting for my husband to return from dinner to break the news. For me, because my husband already knew. Imagine the following situation: you, the hospital restaurant, finally having a drink with your friends. Happily celebrating the birth of your first child. Suddenly, there were the gynecologist and the pediatrician asking to talk to you outside. I wonder what went through his head and over his heart. Worse, I imagine how he felt when returning to the table after receiving the news, having to again face the friends and the whiskey who where still celebrating. Doctors asked him if he were to give me the news ASAP or if it was better to wait for the test results of karyotype, which would confirm the diagnosis. He replied that he preferred to tell soon. I just can’t think about the correct words that can express the gratitude I feel for this decision. For me it was a great proof that we are a real couple that my husband knows we’re together for better or worse, and especially that he will never leave me in the dark. At the age of 40, I’m still afraid of the dark.

Cut. Let’s get back to the room. My husband arrived a little after the doctor and locked the door. Still, it do not hit me. But when the two sat on the couch and my husband did the introduction saying “Honey, me and doctor are here to …” I understood everything. I do not remember exactly how he spoke. I remember just single words: Mateus, perhaps, down. I often say that at that moment I was sucked into a movie. Everything went foggy. I’m not using this word for dramatic effect. Really. Everything went foggy and remained so for a long time. Weeks.

All I could think could be summed up by two questions. The first was whether the syndrome represents risk to the life of Mateus. The doctor assured not. My baby was very healthy and perhaps rightfully so, no prenatal test has detected changes. The second question, I did not have the heart to do. Not then and not ever. I thought it was a very silly question. A frivolous detail against the situation. I was afraid to be considered shallow, but what I really wanted to know was if one day Mateus would smile.

They say that every father and mother idealize the baby of their dreams during the nine months of pregnancy and that invariably and in varying degrees, all will bem hit by something called narcissistic frustration. Because no baby is born just as we dream. Or he will not pull the blue eyes of the grandfather as you would like. Or he will cry a lot more than you thought. Doesn’t matter what. Something will not turn out the way you planned.

I never bothered with Mateus’ eye color. I never lost one second dreaming of a magazine cover baby. But I always wanted a laughing one. And as I knew very little about Down syndrome, I was afraid that it would steal the only thing that was very important to me. After health, of course.

Today, nearly seven months later, my son is the most smiling baby I’ve ever met. He’ll never get an idea of ​​the effect that those toothless gums cause me. He is a little late to sit. Probably he will also take longer than others to walk and talk. But I don’t care. To solve this, we have physical therapy and phono. I’m happy. For being able to make him happy. And this is the only thing that really matters.

Text written in April / 2013

Photo: Carol Bastos for Pais & Filhos Magazine

 

 

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