Mãe especial? Não, obrigada.

Filhos especiais vêm para pais especiais.

Esta é, de longe, a frase que mais tenho escutado desde o nascimento do Mateus. Sempre dita com muito carinho pelos amigos ou com a melhor das intenções por desconhecidos. Mas desde o primeiro momento, me recuso a concordar com ela. Assim como não quero e não vou me sentir por baixo por ter um filho com síndrome de down, também não acho que devo me sentir por cima. Não sou melhor que nenhuma de minhas amigas, parentes ou conhecidas que tiveram filhos típicos.

Mas também já desisti da argumentação. Agora, escuto a frase, agradeço e me calo. Porque a minha resposta só piorava a situação. Só fazia as pessoas insistirem na teoria de que realmente sou uma mãe especial. Afinal, além de tudo, ainda sou humilde. E tome exaltação à minha coragem, minha força e minha dedicação ao Mateus. Muito obrigada. Porém, insisto: nada disso me faz melhor que ninguém.

Fico pensando em todas as mães que conheço e acredito piamente que a grande maioria delas sentiria e agiria exatamente como eu. Também passariam pelo susto, pela tristeza da perda do filho perfeito tão sonhado e, em seguida, pela aceitação e pela busca do melhor para o pequeno. Tudo isso permeado por muito amor, mas também por muita insegurança.

É mais ou menos como nos filmes de super heróis. Tudo bem que, para quem está dizendo que não se acha especial, esta não é uma boa comparação. Mas, vamos lá. Você vai entender o raciocínio. Nos filmes, quase sempre é assim: o herói só descobre seus superpoderes na hora do aperto. Ele está lá com seu poder de voar ou com sua super força, mas levando uma vida normal. Até que alguma situação extrema acontece. A mocinha fica presa em um carro pegando fogo, uma criança está prestes a ser atropelada ou um parente é cercado por ladrões. E aí, de repente, ele percebe que pode levantar carros ou voar para o outro lado do país em segundos.

No filme do Homem Aranha, o tio dele diz: com grandes poderes, vem grandes responsabilidades. A frase ficou famosa. No caso de quem tem um filho down ou com qualquer outra dificuldade, o raciocínio se inverte: com grandes responsabilidades, vem grandes poderes. Você se descobre capaz de fazer coisas que nunca imaginou.

Minha vida totalmente livre, dividida entre carreira e noites super animadas em festas e happy hours, acabou. Mas seria muito injusto colocar este peso nas costas do Mateus. A carreira já tinha dado uma guinada antes dele chegar. Mudanças aconteceram, uma empresa não se saiu tão bem quanto o planejado. A badalação também já tinha dado o que tinha que dar. Aproveitei demais enquanto durou e poderia até ter voltado a ela, mas, realmente, faltou vontade. Faltou vontade de deixar o Mateus com a babá. Faltou vontade de abrir mão de colocá-lo na cama apenas para viver mais uma noite como tantas outras.

Se não corri atrás de retomar este estilo de vida, garanto que não foi pelo bem do Mateus. Foi pelo meu próprio bem. Muito mais uma demonstração de egoísmo que de altruísmo. Sou mais feliz perto dele. Me faz bem ser a pessoa mais importante em sua vida ao invés de ser apenas mais uma dentro da empresa ou na mesa do bar.

E, quando dá muita saudade de um papo regado a uns vinhozinhos e cigarrinhos, sempre posso convidar uma amiga para vir em casa. Para que eu possa relembrar um pouco da antiga Ana sem desgrudar o olho da babá eletrônica, sem deixar de estar disponível para um possível chorinho noturno e, mais importante, sem dormir tão tarde. Porque às seis da manhã, o pixuxu está acordado esperando por mim com aquele sorriso que, este sim, até me faz acreditar que sou especial.

Foto: Carol Bastos

English Version

Special children come to special parents.

This is, by far, the sentence I have heard more constantly since Mateus was born. Always said with great affection by friends or with the best of intentions by unknown people on the streets. But since the first day, I refuse to agree with her. Just as I do not want and I will not feel down (ops, down) by having a child with Down syndrome, also I do not think I should feel superior to anyone. I’m not a better person than any of my friends, relatives or known who had typical children.

But I have also given up the discussion. Now, I hear the sentence, say thanks and let it go. Because my answer only made it worse. Only made people insist on the theory that I really am a Special Mother. Because, after all my courage, my strength and my dedication to Matthew, I am modest too. Thank you. But I insist: none of this makes me better than anyone.

I think about all the mothers I know and firmly believe that the vast majority of them would feel and act exactly like me. Would also face all the sadness for the loss of the dreamed perfect kid and then the acceptance and the search for the best treatments and terapies. All this permeated by a lot of love, but also a lot of insecurity.

It’s kind of like the superhero movies. Although, for someone who is saying that don’t want to be considered special, this is not a good comparison. But stay with me. You will understand my point. In the movies, it’s almost always the case: the hero only discovers his superpowers at a moment of huge distress. He’s there with his power of flight or with his super strength, but leading a normal life. Until some extreme situation happens. A girl gets trapped in a car on fire, a child is about to be run over or a loved relative is surrounded by thieves. And then, suddenly, he realizes that is able to lift cars or fly across the country in seconds.

In the movie Spiderman, his uncle says: “with great power comes great responsibility”. This sentence became famous. In the case of those who have a child with down syndrome or any other difficulty, the reasoning is reversed: with great responsibility comes great power. You find yourself able to do things you never imagined.

My totally free life, torn between career and super fun nights at parties is over. But it would be very unfair to put this weight on Mateus’ shoulders. The career had already taken a turn before he arrived. Changes have happened, my company did not do as well as planned. The hype had also given what had to give. I enjoyed a lot while it lasted and could even have gone back to it, but really lacked will. Lacked desire to leave Matthew with the nanny. Lacked the will to give up putting him in bed just to live another night like so many others.

If I didn’t rush back to this lifestyle, I guarantee it was not for the good of Mateus. It was for my own good. Much more a demonstration of selfishness than altruism. I am happier near him. Makes me well be the most important person in his life instead of being just another one in the company or in the bar.

And when I the desire of some small talk and wine gets too big, I can always ask a friend to come home. So I can remember some of the old Ana without taking my eyes of the baby monitor, while remaining available for a possible night cry and, most importantly, not going to bed too late. Because at six in the morning, my little guy is awake waiting for me with that smile that, this yes, even makes me believe that I am special.

Photo: Carol Bastos

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2 comments on Mãe especial? Não, obrigada.

  • Juliana M Rodrigues

    Oi Ana, li e adorei! Seu site tem nestweler (é assim que se escreve?! aquela listinha de e-mails que retransmite suas novas publicações?) se sim, gostaria de participar. Beijo, Juliana

    • AnaCastelo
      AnaCastelo (author)

      Oi, Juliana! Não tenho! Mas vou providenciar, tá? Bjs!

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