Sobre A Grande Cagada

Nova York. Junho de 2012. Ana e Marcelo, eu e meu marido, em um momento perfeito. Curtindo a tradicional viagem para comprar o enxoval do bebê. “Baby Moon”, segundo o dicionário da maternidade moderna premium. Dias lindos, hotel maravilhoso, restaurantes premiados e um apetite de grávida que deixava tudo ainda mais gostoso. Engordei 5 quilos naquela viagem.

Mas entre tantas estrelas Michelin, o que marcou mesmo foi um café da manhã, quando, devorando algumas autênticas e gordas panquecas americanas, resolvi abrir o jogo: “Estou tão feliz, tudo parece tão certo, que tenho medo de um dia acontecer uma grande cagada com a gente. Ninguém pode ser feliz assim por muito tempo”. Meu marido confessou que também andava pensando no mesmo. Confessou daquele jeito masculino. Mandou um “é verdade” acompanhado de uma bufada. Mas essa bufada tinha legenda. E era assim: “Ufa, ainda bem que você tocou no assunto porque também ando pensando nessas coisas aí”. Antes que alguém me acuse de falar por ele, já conversamos sobre o assunto e ele concordou com esta interpretação, ok?

Logo em seguida, em seguida mesmo, durante o mesmo café da manhã, também pensei em outro lado da história. E falei, claro. Esta história de “penso, logo existo” não rola pra mim. Aqui é “penso, logo falo”. Ou “nem penso, mas falo mesmo assim”. Não que isso seja uma qualidade. Enfim, voltando. Logo em seguida, já emendei: “Mas, poxa, talvez este lance de felicidade seja muito relativo, uma questão de interpretação. Porque posso muito bem contar uma versão bem triste dos meus últimos anos”. Minha chegada totalmente sozinha em São Paulo, a morte de meu pai, trabalho, luta, trabalho, luta, uma empresa que não deu certo, um aborto que me arrasou e muitas outras coisas no meio de tudo isso que até cheguei a descrever aqui neste texto mas apaguei. Definitivamente, não sou dada ao drama.

Três meses depois do tal café da manhã com panquecas, mapple syrup, planejamentos de compras e conversas malucas sobre a vida, o Mateus nasceu e trouxe com ele o maior susto que já tomei: a notícia da síndrome de down (não escrevo o nome dela com letras maiúsculas nem ferrando).

Foi quando eu mergulhei. Quase afoguei. Sei que parece uma analogia boba e comum. Mas juro que a sensação foi esta: de um mergulho bem lá no fundão. Lembrando que sou fumante e sedentária. Então, imagina. Na volta, já quase sem ar, coloquei a cabeça para fora d’água, dei aquela chacoalhada na cabeleira para enxergar melhor as coisas e perguntei para o meu marido que, ali ao lado, também tentava recuperar o fôlego e só não chacoalhava os cabelos porque não os tem desde os 18 anos: “E aí? Que dia vai acontecer a grande cagada? Porque ninguém pode ser feliz assim o tempo todo”.

Felicidade é uma escolha.

Texto publicado pela Revista Pais & Filhos em outubro de 2015.

English Version

 

New York. June 2012. Ana and Marcelo, me and my husband, at a perfect moment. Enjoying the traditional trip to buy baby stuff. “Baby Moon” according to the dictionary of premium modern motherhood in Brazil. Beautiful days, wonderful hotel, award-winning restaurants and a pregnant appetite that made everything even more enjoyable. I gained 5 kilos on that trip.

But among so many Michelin stars, the unforgettable meal is a breakfast, while eating some authentic and fat American pancakes, I decided to come clean: “I’m so happy, everything seems so perfect, that I’m afraid that one day something really bad happens. No one can be so happy for such a long time.” My husband confessed that was also thinking about the same. He confessed that masculine way. He said “ok”, basically. But this ok had a subtitle. And it was like, “Phew, I’m glad you brought it up because I’ve been thinking about these things too.” Before anyone accuses me of speaking by him, we’ve talked about it and he agreed with this interpretation, ok?

Soon after, even during the same breakfast, I also thought about the other side of the story. And I said, of course. This “I think, therefore I am” line does not work for me. I’m more the kind of “I think, therefore I speak” person. Or even “I do not think, but I talk anyway.” Not that this is a quality. Anyway, coming back to what matters. Soon after, I amended, “But, you know what, maybe this happiness bid is very relative, a matter of interpretation. Because I can tell a very sad story about my last years.” My lonely arrival in São Paulo, the death of my father, work, struggle, work, struggle, my company failure, an abortion that struck me and many other things in the middle of all this that I have described here in this text but deleted. Definitely, I am not very given to drama.

Three months after such a breakfast with pancakes, mapple syrup, baby shopping plans and crazy conversations about life, Mateus was born and brought with him some bad news: down syndrome.

That’s when I dove. Almost drowned. I know it sounds silly and common analogy. But I swear that the feeling was exactly like this: a very deep dive. Too deep. Remembering that I am a smoker and sedentary. So think how hard it was. On the way up, almost out of breath, I put my head out of the water, shook my hair to better see things around and asked my husband, who was right beside me and also trying to catch his breath and not only rattled his hair because he doesn’t have them since age 18: “So? When exactly will happen that big shit? Because no one can be happy like that all the time. “

Happiness is a choice.

Text published by Pais & Filhos Magazine in October 2015.

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3 comments on Sobre A Grande Cagada

  • Silvana Ritter

    Lindo texto…. Lindo, lindo, lindo…. O final é arrasador. Parabéns moça! Você tem o dom da palavra!

    • AnaCastelo
      AnaCastelo (author)

      Obrigada, Silvana!!! Você nem imagina como é bom ler seu comentário! Bjs

  • Vaneska Schmidt

    Sabe, fazia tempo que eu não acessava aqui, mas vi que não tinha nenhum textinho novo desde quando eu li. Mas, resolvi relembrar de alguns e me deparei com esse aqui. Lembro claramente de ter olhado para Marcelo e Mateus, quando eu estava grávida de Lucas, e ter dito a mesma coisa: “Como é que podemos ser tão felizes? Será que é possível ser feliz a vida inteira assim? E depois do mesmo mergulho que você deu, a serena evidência de que a podíamos ser ainda mais feliz do que já éramos!”

    Beijos, queridona!

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