Sobre Como Tratar Meu Filho – Parte I

Sempre digo e faço questão de repetir que detesto esta neura politicamente correta que escaneia palavra por palavra textos humorísticos, jornalísticos ou bloguísticos. Na boa? Tenho mais o que fazer. Já fui deletada da vida de um amigo, que também tem uma filha com síndrome de down, porque não aderi a uma campanha contra o Rafinha Bastos. Algo a ver com uma piada que o cara fez sobre camisinhas que retardam o orgasmo e a APAE. Sacou? Camisinha, pinto, retardo, APAE? Então. Na minha opinião, uma piada sem graça. Péssima. Mas daí a me sentir ofendida e querer entrar em uma campanha, estou fora. Não vou perder o tempo que não tenho com bobagem.

Já outras coisas, me deixam danada sim. Biólogo famosão dizendo que é imoral colocar um filho com síndrome de down no mundo. Blogueira constantemente citando o assunto com desprezo em textos aleatórios. Sobre isso eu escrevo. E ninguém é obrigado a concordar. Liberdade é isso aí.

E este é o primeiro capítulo do meu Guia Pessoal Sobre O Que E Como Falar Sobre Meu Filho Mais Velho:

Item 1: Qualquer frase será inicialmente interpretada da melhor forma possível. Ao contrário da turma da patrulha, tenha certeza que estarei sempre tentando encontrar uma brecha para suas palavras. É muito difícil conhecer e encaixar sempre os termos corretos, eu sei. Meu filho vai fazer 3 anos e ainda me pego confusa entre palavras como: normal, comum, portar, ter, ser e mais um montão. Se nem eu, mãe e ativista, consigo ser certinha o tempo todo, quem é que consegue? Para mim, mais importante que os termos usados é o tom e a intenção. Somos todos diferentes. Somos todos esquisitos. E, pelo menos nisso, o Mateus não foge à regra.

Item 1. A.: Ninguém será condenado por usar deixar escapar que meu filho tem um problema. Se tem uma coisa que todo mundo tem é problema. A diferença é que eu e você talvez tenhamos que nos conhecer um pouco melhor para sacar o(s) problema(s) um do outro. Já o do meu filho está bem ali, na carinha dele. Poxa, vai me dizer agora que ter mais dificuldade para aprender as coisas não é um problema? Claro que é. Seria uma sacanagem querer convencer o Mateus do contrário. Não posso tratá-lo como se fosse super simples subir as escadas. Seria maldade. Porque, sério, para ele, é difícil pra caramba.

Item 2: Pode dar uma olhadinha curiosa sim. Antes do Mateus nascer, tive muito pouco contato com pessoas com síndrome de down. Portanto também achava diferente. Sei que a gente dá uma olhada mais demorada sem nem perceber. Pode comentar com a pessoa ao lado também. Primeiro, porque eu não estou nem aí para o que você acha. Segundo: aprendi que não devemos julgar mal qualquer olhar ou comentário de canto de boca. As pessoas podem estar só achando o Mateus lindo ou tentando entender se Mateus e Helena são gêmeos ou não. Quer saber? Na maioria das vezes é só isso.

Item 3: Pode perguntar o que quiser. Gente que tem dúvida é mais legal que gente cheia de verdades. E quem tem coragem de perguntar é melhor ainda. Pode perguntar sobre os exames durante a gravidez. Pode perguntar sobre como me senti, sobre os inexistentes “graus” da síndrome de down, se eu abortaria se tivesse a chance, qualquer coisa. Pode até  perguntar se engravidei da Helena para “resolver alguma questão”. Assunto que eu até já explico. Engravidei sem querer, amamentando e tomando pílula. O que, ao meu ver, não passa por vontade divina, milagre ou destino. Apenas foi. Sabe quando uma estatística diz que 99,9% das mulheres não engravidam nessas ou nessas circunstâncias? Então. Prazer, sou o 0,1%. O que não é novidade, já que segundo os mais modernos exames pré-natais, minha chance de ter um filho com síndrome de down era de exatamento 0,00026667%. Ou seja, estou ficando bem boa nesse negócio de furar estatística.

Continua…

Ô, se continua…

Foto: Carol Bastos

1,356 total views, 1 views today

4 comments on Sobre Como Tratar Meu Filho – Parte I

  • Sherlley

    Ótimo seu texto,melhor ainda porque você explica oque sente e não é preconceituosa,muitos pais,são,por mais amor que tenha pelo filho,olham os estranhos como ameaça.as vezes,mesmo não tendo filho especial,só queremos conversar sobre nossas crias.

    • AnaCastelo
      AnaCastelo (author)

      Esta é a ideia, Sherlley! Obrigada! Bjs

  • Andreia Garcia

    Olá gostei muito do que li e vou gostar ainda mais do que ainda vou ler já que continua… Estou exatamente nessa fase minha bebê tem três mêses e SD, como vc também quebrei os parâmetros nada mostrava que ela poderia ser SD…foi uma surpresa e uma certeza de que tudo ficaria bem…e os curiosos chegam achando que temos um extraterrestre em casa kkkk ai olham e falam tadinha ela é linda!!!Ai respiramos profundamente e falamos tadinha não, ela não caiu no melado… e damos um sorriso pra apaziguar as coisas.Realmente eles não sabem o que dizer é vai muito da nossa capacidade em responder claramente a tarefa de reduzir os preconceitos…Obrigado pela clareza de dias idéias que me fazem mais firme no propósito de Amar…Só Amar…

    • AnaCastelo
      AnaCastelo (author)

      Andreia… hahaha…. amei “não caiu no melado”… tem outra frase que diz, “coitado é filho de rato que nasce pelado”… nunca entendi já que a gente também nasce pelado, mas é boa mesmo assim. E obrigada a você por ler e comentar! É muito bom poder papear a respeito de nossos filhos. Bjs!

Deixe uma resposta