Sobre o Uso Correto dos Pronomes

Eles. Pronome pessoal da terceira pessoa no plural. Quatro letrinhas. Muito provavelmente a palavra mais ouvida por quem tem um filho com síndrome de down. Eles são especiais. Eles são muito carinhosos. Eles têm muito interesse por música. Eles são um presente. Eles, eles, eles. Frases sempre ditas com as melhores intenções. Não quero entrar na questão do politicamente correto. Não sou politicamente correta. Detesto essa demagogia toda. Quando alguém engole a palavra “problema” no meio de uma frase sobre o Mateus, sempre digo que que está tudo bem e que a pessoa pode terminar o que estava dizendo. Mateus tem sim um problema. Eu tenho vários. Quem não tem? Mas, a palavra “eles” inclui meu filho em uma categoria. E ninguém quer ver seu filho incluído em uma categoria.

Não que eu esteja criticando as pessoas que me falaram frases começadas assim. No auge do susto e da preocupação, a gente, muitas vezes, quer dizer algo bacana e nem sempre encontra as palavras certas. Estou apenas relatando uma curiosidade. Uma das muitas sutilezas que só quem está em determinada situação percebe. Nenhum amigo ou parente meu teve um filho com síndrome de down antes de mim. Mas, se tivesse acontecido, talvez, eu também tivesse usado alguma frase começada com “eles”. Provavelmente aquela que diz o quanto “eles” são muito amorosos.

Para provar que não estou vendo pelo em ovo, tenho minha caçula, a Helena. Nunca ninguém se referiu a ela no plural. Suas características são sempre pessoais e intransferíveis. Apesar de existir um trilhão de meninas inteligentes por aí, as pessoas sempre comentam como “ela” é esperta. Quem vê Helena dando duzentos beijinhos e abracinhos por dia fica impressionado como “ela” é carinhosa. Ela. Apenas ela.

Ainda bem que entre ele e ela, existe outro pronome: eu. E eu amo esta oportunidade tão rica e maluca de viver as diferenças e as semelhanças entre os dois. Ele, o discreto. Ela, a extrovertida. Ele, o artista. Ela, a espoleta. Eles, os bacanas. Eles, os gente boa. Eles, os meus filhos, meus dois amores.

English Version

About The Proper Use Of Pronouns

They. A third person plural pronoun. Four little letters. Probably the most heard word by those who have a child with down syndrome. They are special. They are very sweet. They are very interested in music. They are angels. They, they, they. Sentences always said with the best intentions. I’m not going into the issue of political correctness. I am not politically correct. I hate all this demagoguery. When someone swallows the word “problem” in the middle of a sentence about Mateus, I always say that it’s okay and that the person can finish what was about to say. Because Mateus does have a problem. I have a lot. Who doesn’t? But the word “they” includes my son in a category. And nobody wants to see their newborn child included in a category.

Not that I’m angry at the people who told me sentences like that. Not at all. At the height of concern, I know it’s really hard to find the right words. I’m just reporting a curiosity. One of the many subtleties that only those in a given situation notices. No friend or relative of mine had a child with Down syndrome before me. But if it happened, perhaps I had also used some sentence started with “they.” Probably the one that says how “they” are very loving.

But, just to prove my point, I have my youngest child, Helena. And, guess what? No one ever referred to her in the plural. Her qualities are always personal and not transferable. Although there is a billion intelligent girls out there, people always comment on how “she” is smart. People who sees Helena giving me a lot of kisses and hugs all day long is always impressed by how “she” is sweet. She. Only her.

The great thing is that, between him and her, there is another pronoun: me. And I love this rich and crazy opportunity to live the differences and similarities between them two. He, the shy guy. She, the extrovert. He, the artist. She, the energetic. They, my children. They, my two loves.

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