Sobre Comemorações e Revelações

Mateus completou um ano e comemorei a data até não poder mais. Não estou falando de festas, buffets e presentes. Mas de uma comemoração muito pessoal. Minha alma estava em festa. Para mim, foi a conclusão de um ano em que passei da expectativa de ter meu primeiro filho, para um momento assustador, tipo fundo do poço mesmo, e, em seguida, para um terceiro capítulo lotado de amor e daqueles clichês bobocas de mãe de primeira viagem. Queria comemorar a felicidade do Mateus e ainda mais a minha própria. Pois, durante um tempo, achei que não ia sentir isso de novo. Para mim, este ano, o Natal chegou em setembro.

Junto com a data, aconteceu um fato interessante. O rostinho do Mateus passou a demonstrar mais claramente os sinais da síndrome de down. Até então, as pessoas normalmente não percebiam e, diante da informação, ficavam bem surpresas. Perguntavam até se eu tinha certeza. Agora não. As pessoas notam já de cara. Ou melhor, na cara. Percebo os olhares, os comentários em voz baixa. Mas, calma, este não é um texto triste ou um manifesto contra o preconceito. Quero apenas relatar mais um fato curioso e novo em nossas vidas. Como tantos outros que estamos descobrindo aos poucos.

Para você, pode parecer estranho, mas acho bacana quando alguém chega e pergunta abertamente se ele é especial ou, mais abertamente ainda, se ele tem síndrome de down. Normalmente, quem age assim, o faz com uma curiosidade saudável. Às vezes, tem algum parente próximo com a mesma questão. Outras vezes, ficou encantado ao ver um menino tão simpático, bonito e esperto com os olhinhos puxados tão típicos da síndrome. Sem contar que, andando por aí com um bebê de um ano no carrinho e outro de 8 meses no barrigão, chamo mais atenção que destaque de escola de samba. As pessoas se aproximam, puxam conversa e comentam mesmo.

Como disse acima, chego a gostar quando alguém se aproxima de mansinho e faz a pergunta. Acho uma atitude pura e corajosa abordar o assunto assim. Ou será que a personalidade pura e corajosa do Mateus me contagiou de um jeito que já estou enxergando estas qualidades em todo mundo? Não sei. Mas o diálogo começa sempre da mesma forma. Com a pessoa perguntando em voz baixa. E eu entendo. Já imaginou o medo de dar um furo? Perguntar para uma mãe se o filho tem síndrome de down e ela responder que não? Nossa, eu mesma já passei por isso. Já encontrei bebês em diversos lugares que me deram vontade de abordar o assunto com a mãe, mas fiquei quieta. Medo de estar enganada. Mais medo ainda de encontrar uma mãe que não quer falar sobre o assunto. Ao contrário dos corajosos que me abordam, eu fico na minha.

Mas, enfim, esta novidade serve para provar a mim mesma que não estou mentindo quando digo que superei o susto. Por mais que eu ame meu filho e encha as pessoas com meus textinhos falando de amor e superação, ficava me perguntando se, talvez, lá no fundo, o preconceito e a dor ainda não estavam presentes. Mas agora posso responder seguramente que não. Quando percebo uma pessoa se aproximando meio sem jeito e fazendo uma pergunta em um volume muitas vezes até difícil de ouvir, faço questão de responder com um sorriso. Faço questão de tranquilizá-la mostrando que ela não está dando um fora e que o assunto não é tabu. E o que recebo em troca é sempre compensador. Primeiro, vem o suspiro de alívio. Em seguida, perguntas muito pertinentes ou afirmações cheias de admiração e carinho. Como aconteceu com a linda avó que me abordou outro dia no shopping. Uma senhora de roupas simples, mas postura muito elegante, fez a tal pergunta em vozinha baixa e aquele olhar cheio de medo. Eu nem precisei ouvir para responder “sim” com um sorriso. Depois de soltar aquela expressão de alívio que já conheço tão bem, ela contou que já estava nos observando de longe porque tem uma netinha down de 8 meses e se sentiu reconfortada ao ver um bebê um pouco mais velho tão alegre, esperto e tranquilo. Entendi perfeitamente o que ela estava sentindo. Quando o Mateus nasceu, minha maior curiosidade era conhecer outros bebês, um pouco mais velhos, com síndrome de down. Afinal, é mais comum vermos pessoas com nove, dez anos ou adolescentes nas ruas. Agora, criancinhas de um, dois ou três anos, eram um mistério para mim. Será que eram doentinhas? Será que eram alegres? Por onde elas andavam que nunca as vi por aí?

Provavelmente, por isso, eu ache este tipo de situação tão interessante. O que antes era uma incógnita, agora é simplesmente a minha vida. E é uma ótima vida. Ainda cheia de inseguranças e perguntas. Mas, se minha experiência ao longo deste último ano puder ajudar uma pessoa aqui e outra ali a superar seus medos e responder algumas de suas dúvidas, continuarei guardando o melhor de meus sorrisos para cada uma delas.

Texto escrito em outubro de 2013

 

 

 

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