A Sala Vazia

Quando o Mateus tinha aproximadamente 2 meses, resolvemos abandonar o pediatra tradicional e procurar outro especializado em síndrome de down (sim, eu continuo usando letras minúsculas para não encher a bola da danada). Na verdade, era um teste. Estávamos ainda muito agarrados à mentalidade de que ele tinha que ser tratado normalmente e não sabíamos que a criança down tem diferenças fisiológicas que precisam de um olhar mais preparado.

Este texto vai ser curto. Porque a experiência foi bem rápida também, apesar de tão forte. Antes de sair de casa, fiz questão de passar uma maquiagem, colocar um vestido bonito e calçar um salto alto. Apesar de não estar em minha melhor forma, de não ter perdido os quilos extras da gravidez e de sentir o coração mais pesado que aquela barriga esquisita do pós-parto, queria chegar mostrando que eu não estava por baixo, que era uma mãe forte e bem resolvida, que nada me abalava. Sei lá porquê. Coisa de mulher.

Chegando ao hospital, fomos encaminhados ao andar da pediatria onde, obviamente, encontramos barulho, bagunça e crianças correndo para todo lado. Parei na primeira recepcionista e falei que tinha consulta com o médico X. E foi automático. Ao mencionar o nome do médico, o olhar da recepcionista rapidamente procurou o bebê com curiosidade. Mateus estava logo atrás, no colo do meu marido. Para mim, ficou claro, se a consulta era com o doutor X, algo de diferente havia.

Seguimos a explicação da recepecionista. Primeira à esquerda, segunda à direita, final do corredor. E, nos embrenhamos hospital adentro. Durante a trajetória, a gritaria foi diminuindo. A antessala do médico tinha vários brinquedos, como em qualquer pediatra, mas não havia uma alma viva. O médico demorou meia hora para abrir a porta do consultório e nos chamar. E, durante este tempo, ninguém apareceu. Nem criança correndo, nem mãe agoniada, nem babá carregada de sacolas. Éramos só nós três.

A consulta foi ótima. Detalhada, repleta de explicações, pedidos de exames e elogios ao desenvolvimento do Mateus. Mas nunca vou esquecer a sensação de entrar naquela antessala. Dali pra frente, seria sempre assim. Não pertencíamos à pediatria tradicional, mas a um universo à parte.

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