Sobre Filhos e Textos

Desde que a Helena nasceu, perdi um pouco a inspiração e a vontade para escrever sobre o Mateus. Pode ser o cansaço pelas noites mal dormidas típicas das mães de recém nascidos. Pode ser falta de tempo para pensar no assunto. Com dois bebês em casa, tempo para escrever é um luxo maior que passar as férias na Polinésia. Também pode ser que a experiência de um parto sem sustos tenha aliviado algum peso que restava em meu coração. Não sei. Mas parece que a síndrome de down do Mateus perdeu ainda mais a importância desde que ela nasceu.

O pediatra do Mateus, um super especialista em síndrome de down, recomenda fortemente às mães de seus pacientes que tenham outro filho. Ele diz que, durante muito tempo, creditou o melhor desenvolvimento de algumas crianças às condições financeiras dos pais. Afinal, o atendimento adequado, os exames de saúde constantes e as terapias não são baratos. Até o dia em que ele percebeu que algumas crianças down moradoras de uma favela também tem um desenvolvimento surpreendente, mesmo sem todos estes cuidados. Ao se aprofundar no assunto, ele chegou à conclusão que, na verdade, as crianças down, ricas ou pobres, que melhor se desenvolvem são aquelas que tem irmãos de idade próxima. Até três anos de diferença.

Quando levei o Mateus para a primeira consulta neste especialista, ele perguntou se pretendíamos ter outro filho. Ele não tinha notado minha barriga de quatro meses de gestação. Ao receber a notícia da gravidez, acho que ele ficou até meio decepcionado por ter que pular seu discurso pró-bebê. Mas deu o veredito: “Helena será a melhor terapeuta que o Mateus poderia ter. Não há fono, TO ou fisio que seja capaz de fazer por ele o que a Helena será capaz de fazer”.

Fiquei um pouco preocupada com a responsabilidade que aquela criança já carregava antes mesmo de nascer. Mas rapidamente me toquei que este peso poderia ser dosado por mim e parei de me preocupar com isso.

Minha filha ainda é muito pequena. Tem apenas dois meses de vida. Mas já está deixando claro que pode fazer muito pelo irmão mesmo sem fazer nada. Simplesmente por existir. Ao tirar minha inspiração para escrever sobre o Mateus e sua síndrome, ela mostra que chegou para deixar tudo mais leve. E ao lembrar constantemente que depende de mim tanto quanto ele, ela me faz enxergar que ela e o irmão são apenas dois bebês que só precisam de cuidados, amor e que tem uma vida toda, maluca e cheia de incertezas, pela frente.

Texto escrito em fevereiro de 2014.

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