Sobre Filhos, Auto Estima e Nutella

 

A gente provavelmente não se conhece muito bem. Este lance de facebook torna o conceito de amizade meio confuso. Mas vou contar uma coisa que nem meu marido sabe. Outro dia fiz um teste de gravidez em um banheiro do Aeroporto de Congonhas. Pois é. Eu tinha ido ao Rio para uma reunião. A volta foi meio estressante. Vôo cancelado pelo mau tempo. Três horas de espera no Santos Dumont. Mas, para vocês entenderem a história direito, preciso voltar no tempo.

Quando parei de amamentar o Mateus, meu primeiro filho que hoje tem dois anos e oito meses, bateu uma insatisfação com meu corpo e resolvi procurar uma endocrinologista para tentar perder aquela barrigona esquisita que ficou. Já estava meio cansada das pessoas perguntarem para quando era o bebê sendo que o parto já tinha acontecido há tempos.

Sempre tive a sorte de não engordar muito, mas também o azar de ter uma barriguinha exibida que, desde que eu era novinha, sempre fez de tudo para ser o centro das atenções. Não sou do tipo “louca do whey” ou “rainha do botox”. Mal passo hidratante e já paguei por dezenas de sessões em máquinas queimadoras de gordura nas quais nunca entrei. Acho chato pra caramba. Mas, assumo, sou vaidosa.

Logo no começo da consulta, a endocrinologista pediu para eu tirar a roupa e em seguida falou: “É, Ana, é só barriga. Você está magra. Mas esta pochete está realmente desproporcional. Você não está grávida de novo não”? Eu: “Não. Impossível”. Então, ela pediu um exame de sangue para averiguar os hormônios. E, entre os exames, havia um pedido de Beta HCG, hormônio que indica gravidez, só para garantir.

Três dias depois, lembrei de entrar no site do hospital para ver os resultados. Três dias depois. Nenhuma mulher que cogita, mesmo que vagamente, estar grávida espera três dias para conferir o resultado de um Beta HCG. Até porque este resultado sai em poucas horas. Entrei no site do hospital e estava lá: um montão de números. Muitos zeros. Grávida. Gravidérrima. Mais de dois meses já.

Assim, descobri que Helena estava a caminho. Engravidei amamentando e tomando anticoncepcional. Ok, eu não estava sendo super certinha com a pílula. Com um bebê de sete meses, um diagnóstico surpresa de Síndrome de Down e toda a revolução que isso traz, é fácil esquecer dessas coisas. Mas os “namoros” com meu marido também eram raros. E, vamos combinar, eu já estava entrando nos quarentinha. Nunca imaginei que engravidaria tão facilmente de novo.

Sabe de nada, inocente.

Voltemos ao aeroporto Santos Dumont. Fazia pouco tempo que eu tinha parado de amamentar a Helena e estava animadíssima retomando minha vida profissional. Era o primeiro trabalho importante depois de um tempão. Estava no Rio, lugar que amo de paixão. Mas, por duas vezes, em menos de 10 minutos, funcionários do aeroporto fizeram a gentileza de me encaminhar para à fila preferencial graças à tal “barriguinha exibida”. A primeira foi no detector de metais. A educada funcionária fez questão de abrir os separadores de fila, aquelas faixas elásticas, para que eu pudesse passar na frente dos outros. A segunda vez foi já dentro do avião, quando a comissária ofereceu um lugar na primeira fila.

Nas duas situações, respondi baixinho que entendia a confusão, mas não estava grávida, apenas tinha tido um bebê recentemente. Disse “recentemente” para não piorar as coisas. Porque Helena já tinha quase 8 meses. Ver a cara de constrangimento das pessoas só piorou tudo. Porque eu sabia que elas não tiraram suas conclusões do nada. Eu parecia mesmo grávida com minha silhueta magra “pero” barriguda.

Chegando em São Paulo, com a auto estima na sola do pé e a caminho do estacionamento, a vontade de ir ao banheiro apertou e, quando estava quase entrando no recinto, vi que bem ao lado havia uma farmácia. Decidi comprar um exame de gravidez. Já estava com vontade de fazer xixi mesmo e vai que o povo da Infraero e da Gol tinham acertado o diganóstico. O resto, vocês imaginam. Pega, paga, cubículo, pipi, espera, uma linha. Conclusão da história: aquela barriga tinha o nome de Nutella. Sobrenome: Todo Dia De Manhã. Ufa! Mas confesso que cheguei a sentir uma tristezinha. Rápida. Bem rápida. Passou.

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