Sobre o Uso Correto dos Adjetivos

Logo que o Mateus nasceu, no meio daquele turbilhão de dúvidas, surgiu mais uma que a princípio pode parecer pouco importante, mas dificultava bastante o meu dia a dia. Como me referir às crianças que não eram down?

Os amigos, já sabendo que eu estava pesquisando tudo sobre o assunto, queriam saber quais as implicações da síndrome no desenvolvimento do Mateus. E eu travava nas explicações por não saber como explicar as diferenças entre o meu filho e as crianças, as crianças o quê mesmo?

O primeiro impulso foi chamá-las de “crianças normais”. Mas, óbvio que não me sentia confortável falando assim. Parecia que eu estava dizendo que meu filho era anormal. Detesto esta necessidade atual da sociedade de ser sempre politicamente correta. Mas a questão aqui era outra. A coisa não estava soando bem nem para mim.

Aí, um dia, tive a ideia de chamar as outras crianças de “crianças comuns”. Em um primeiro momento, achei que era uma ótima solução. Meu filho era tudo, menos comum. Mas, os dias foram passando e comecei a achar essa expressão bem ridícula. Não quero rebaixar meu filho, mas também não tenho o direito de colocar todas as outras crianças dentro de um mesmo saco como se elas não fossem nada demais.

Também tentei “as outras crianças” e não funcionava muito bem. “Crianças sem down” era muito longo e complicava as conversas.

Até que comecei a frequentar a clínica especializada onde meu filho faz suas consultas médicas, terapia ocupacional, sessões de fono e fisioterapia. E lá, o termo usado para se referir às crianças sem síndrome de down é “criança de desenvolvimento típico” ou, resumindo, “criança típica”. Adorei. Nem normal e nem comum. Apenas típica. Esta descoberta resolveu um problemão de comunicação para mim e, mais uma vez, percebi que meus problemas não são tão diferentes assim dos problemas das outras mães. Quando encontro alguma que gagueja por não saber direito que palavra usar para definir o meu filho, entendo e relevo. Afinal, também tive dificuldade para encontrar a palavra certa para me referir ao filho dela.

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