Sobre os Dias Ruins

Sobre os dias bons, já escrevi pra caramba. Todo mundo já tem uma ideia: amor, esperança e beijos, muitos beijos. Mas preciso admitir que existem os dias ruins. São poucos. E, talvez, justamente por isso, são fortes. Nestes dias, o amor e a esperança ficam meio espremidos entre a tristeza e o medo. Os beijos continuam sendo dados aos montes. Mas com os olhos fechados e apertados com muita força tentando afastar alguns pensamentos.

A grande verdade, que pode decepcionar aqueles que preferem textos cheios de otimismo, é que, às vezes, fico triste sim pela síndrome do Mateus. Calma. Não queria outro filho que não fosse ele. Amo o Mateus por inteiro. Sua personalidade forte, seu jeito de me olhar, seu esforço para aprender, sua paixão pela música e pelo mar, seu mau e seu bom humor. Mas, nos dias ruins, penso que queria só o Mateus. Não a porra da síndrome que o acompanha. Repito: calma. Está tudo bem. Estamos todos ótimos. Ser feliz não significa sentir alegria o tempo todo. Tristeza faz parte.

E hoje está sendo um dia ruim. De manhã, fiquei sabendo de uma criança com síndrome de down que está com uma doença degenerativa muito séria. Aos seis anos, a morte dela é apenas uma questão de tempo. E isso acabou comigo. Acabou com meu dia. Como se meu dia fosse muito importante diante desta notícia.

O que quero contar é que vivo focada no desenvolvimento do Mateus para que ele tenha um futuro digno e independente. E afasto todo e qualquer pensamento que me lembre da possibilidade dele não ter futuro nenhum. Afasto mesmo. Fisicamente. De vez em quando, me vejo abanando a mão, como uma doida afastando uma mosca que não existe. É apenas mais uma bobagem querendo pousar na minha cabeça.

Pessoas com síndrome de down tem uma tendência filha da mãe a desenvolver doenças muito graves e muito cedo. Pneumonias sérias e repetidas, leucemia, Mal de Alzheimer, só para citar algumas. Eles também podem pegar qualquer porcaria que as outras crianças pegam e desenvolver formas muito mais agressivas que evoluem para quadros nada nada bons.

Cada vez que o Mateus tem uma febre, fico agoniada por não saber o motivo. Cada vez que ele parece meio desanimado, uma luz vermelha se acende sobre meu ombro. Criança derrubada é coisa para se prestar atenção. O nariz entupido, que acontece direto e é bem comum nas crianças com síndrome de down, me apavora por talvez ser o primeiro sintoma de alguma coisa horrível. E juro, juro, juro que não sou hipocondríaca. Sou super tranquila com saúde. Ou melhor, era. Depois da pneumonia super séria que o Mateus teve em janeiro de 2014, que levantou até suspeita de leucemia, tudo mudou. Tudo, tudo, tudo.

Até aquele momento, eu achava que ter um filho com síndrome de down significava que ele teria uma dificuldade de aprendizado e que seria um pouco mais dependente de mim que as crianças em geral. Meu maior medo era o preconceito. Mas aquela pneumonia há um ano e pouco me deu um tranco muito forte mostrando que esta bosta desta síndrome pode sim tirá-lo de mim. Tapa no ar, tapa no ar, a louca da mosca invisível espantando pensamento besta.

Apesar de tudo isso, acho que não devo terminar este texto tão para baixo. Assim, ninguém vai nem me reconhecer direito. Vamos pensar que doenças e acidentes podem acontecer com qualquer um, em qualquer lugar, a qualquer hora. Independente de síndromes e oscambau. Ok. Objetivo de terminar pra cima não alcançado. Agora, além de mim, você também está convidado a ficar deprimido por pensar no tanto de desgraça que pode acontecer. Mas qual a graça de se sentir meio mal se a gente não puder arrastar uma meia dúzia junto? Esta piadinha foi mais uma tentativa sem sucesso de terminar o texto pra cima. Melhor não insistir. Quem sabe amanhã?

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