Sobre Recomeços

Em dezembro, sempre acontecem aquelas avaliações do ano que passou. Na escola, na natação, no inglês. E, no caso do Mateus e das crianças com questõezinhas, temos também as avaliações nas terapias. Foi o que aconteceu lá pelo dia 8. Um papo marcado, cancelado e remarcado mil vezes com a Miriam, terapeuta ocupacional, e a Giselle, fonoaudióloga. Duas pessoas que, se eu começar a contar a respeito, este texto não termina nunca. Mas, resumindo: adoro, respeito demais e temos uma certa intimidade. Imagina, quase nada. Elas apenas acompanham o Mateus desde que ele tinha 8 meses, viveram de pertinho a gravidez da Helena e vibraram junto com o início da minha história como colunista e palestrante. Enfim, são duas pessoas muito especiais em nossas vidas.

O começo do encontro foi marcado por comentários sobre meu sumiço da clínica com a retomada da vida profissional. Nada mais normal. Afinal, elas viveram de perto os três anos e meio que passei totalmente voltada às crianças. Principalmente, aos compromissos do Mateus. E, nos últimos meses, andei bem ausente, já envolvida com alguns trabalhos.

Amenidades à parte, senti um suspense no ar. Entre um “nossa, trabalhando muito, hein” e outro “é importante você não se anular”, perguntei: “Meninas, digam, o que está acontecendo?” Foi quando a Gi soltou a frase acompanhada de uma bufada de desabafo: “Ai, Ana, ele está tão melhor depois que você voltou a trabalhar…”

Entendi o “climão” em 1 segundo. Não deve ser fácil dizer para uma mãe que seu filho está se desenvolvendo mais durante sua ausência. O que talvez elas não estivessem esperando é que não sou uma mãe muito dada à culpa. Só um pouquinho. E, por isso, logo as tranquilizei dizendo que aquela era uma ótima notícia porque eu também estava bem melhor trabalhando. Pausa para um suspiro aliviado em grupo.

Consigo entender e perceber direitinho o salto no desenvolvimento do Mateus durante 2016. Ele se tornou mais independente, mais aberto às outras pessoas, mais ligado mesmo, sabe? Faz todo sentido. O porto-seguro se afastou um pouco e ele precisou se adaptar. Diminuiu a quantidade de colinhos desnecessários e aumentou a proximidade com o pai, que é mais do tipo “se vira, menino”.

E, assim, começamos 2017. A mesma mulher que, um dia, decidiu virar a vida do avesso para ficar com os filhos, agora, decidiu mudar de ideia e voltar ao mercado de trabalho. Duas reviravoltas movidas pela necessidade. A primeira, pela necessidade de cuidar de um filho que exige um pouco mais de acompanhamento. A segunda, pela necessidade financeira mesmo. Crise forte. Difícil deixar o marido sozinho com o peso de bancar uma família que duplicou de tamanho em tempo recorde. Mas ambas lotadas de amor. Amor pelos filhos que me escolheram (não tenho religião, mas acredito em uma coisinha aqui e outra ali) e amor pela profissão que escolhi.

Com isso, todos lucramos. As crianças tiveram a mamãe 24/7 durante mais de 3 anos e isso nos uniu absurdamente. Durante o mesmo período, tive a chance de fazer faculdade, pós-graduação e mestrado em maternidade e gestões variadas, como: do tempo, do lar, de pessoas, de conflitos e de finanças.

Agora, o mercado de trabalho está ganhando de volta uma profissional muito melhor. Mais experiente, objetiva, tranquila, multi-tasking (sinto jargões empresariais voltando) e apaixonada do que antes. As crianças, uma mãe muito mais realizada. E a mãe, bem, eu ganhei um filho que, apesar de ainda não falar, outro dia, começou a me chamar de Mã ou Mamã. Ou seja, quem se deu bem mesmo nesta história toda fui euzinha aqui.EC

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