Sobre Filhos e Bandeiras

Textinho escrito para minha coluna na Revista Pais & Filhos em abril de 2017. Clique para ler inteiro.

Em setembro de 2012, nasceu meu primeiro filho, o Mateus. E, junto com as delícias de receber aquele bebezinho tão esperado e lindo, chegou também uma notícia nada agradável de se escutar: a da síndrome de down.

Não, eu não tenho nenhum pudor em dizer que é uma notícia ruim. Não é por acaso que esta coluna se chama “Papo Reto”. Não me venham com conversas sobre anjos e mães abençoadas. A real é que ninguém sonha. Ninguém deseja que seu filho tão pequenininho, recém chegado ao mundo, já tenha que encarar tantas dificuldades. E, sim, elas começam no dia 1. Com exames específicos, terapias que não podem esperar, talvez uma ou outra cirurgia e, principalmente, pais fora do prumo; um casal que deveria naquele momento estar apenas focado em acolher, mas que está com a cabeça cheia de dúvidas e o coração apertadinho.

Os amigos mais próximos que me visitaram na maternidade encontraram uma mãe confusa, meio assutada, mas até que calma. E, diante desta calma inicial, falei para eles que não viraria ativista da causa da síndrome de down. Tudo que eu queria era viver uma vida normal com meu marido e meu filho. Deixaria o hasteamento da bandeira para outras mães já engajadas e muito mais preparadas para a missão que eu.

Corta.

Hoje, quatro anos e pouco depois, estudei bastante o assunto, escrevi dezenas de colunas para a Pais & Filhos (Meus amigos antigos morrem de rir disso. Como assim, a Aninha do vinho, da noite, dos livros e do Marlboro – sorry –   escrevendo para a Pais & Filhos? Inimaginável há uns anos). Também ganhei uma coluna em um site de grande alcance, fiz palestra, presto uma consultoria informal mas lotada de carinho para mães de todo o Brasil que me escrevem ou ligam logo após receber a notícia da síndrome durante a gestação ou depois do parto.

Toda essa história foi para chegar na Helena. Minha filha caçula. Um ano e dois meses mais nova que o Mateus. De vez em quando, uma pessoa aqui e outra ali, me pergunta: E a Helena? É sempre com delicadeza mas consigo perfeitamente ler as entrelinhas. São elas: Será que você não se dedica demais ao Mateus e acaba deixando ela em segundo plano?

Eu mesma já me fiz esta pergunta. E não precisei pensar muito para encontrar a resposta. Helena é uma menina impossível de se deixar em segundo plano. Ela é incrível. Inteligente, engraçada, sedutora, decidida. Com um “a mais” poderoso: Helena sou eu pequena. Olho para ela e me vejo. Mais que isso, me reconheço. Helena faz eu me lembrar de quem eu sou de verdade.

Posso afirmar tranquilamente que, no dia-a-dia, dou até mais atenção a ela que ao Mateus. O Ma é tranquilão, super independente. Helena é mamãe-mamãe-mamãe. Mateus dorme a noite inteira na cama dele. Helena, lá pelas duas da manhã, já está na minha. Agarradinha.

Helena, por enquanto, não tem bandeiras que eu precise ajudá-la a carregar. Ainda bem. Não sei se eu teria forças para carregar mais uma. Muito menos este tipo de bandeira que chega junto com o filho que você acabou de parir. Elas são pesadas. Mas não tenho dúvida de que as bandeiras da Leleca ainda virão. E eu estarei ao lado da minha filha para defender com unhas e dentes todas elas.

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