Sobre o jeito de cada um

Somos todos iguais.

Somos todos iguais.

Somos todos iguais.

O mantra da pessoa bem-intencionada-engajada-do-bem que já entoei tanto por aí. Até entender que a verdadona mesmo é exatamente a oposta: somos todos diferentes.

A ficha caiu quando tive meu primeiro filho. Na real, foi um tempo depois. Logo que ele nasceu, assumo, ainda foquei por um tempo e com todas as forças na teoria de que somos todos iguais.

Até que, um dia, a ficha contrária caiu. E, posso falar? Foi libertador.

Porque, enquanto acharmos que o bacana, o correto, é nos enxergarmos como iguais, não chegaremos a lugar nenhum. À primeira vista, pode parecer super nobre desconsiderar cromossomos a mais, cromossomos a menos, paralisias, tons de pele, talentos, dificuldades, orientações sexuais, endereços ou idades. Mas isso nada mais é do que a continuação pela busca da tal “normalidade”.

Por outro lado, quando você muda seu foco para “somos todos diferentes”, um portal bem grandão abre na sua cabeça. Não apenas sobre o filho com um cromossomo a mais. Não apenas sobre a filha com todos os cromossomos nas quantidades recomendadas. Não apenas sobre o colega cadeirante. Não apenas sobre questões grandonas. Mas sobre você mesmo. Sobre aquele bullying que você sofria na escola e que nem tinha este nome ainda. Sobre aquele cara genial que você adora mas ninguém entende. Sobre seu vizinho que faz umas coisas estranhas. Mas que, você começa a sacar: só parecem estranhas porque você acha que deveríamos ser “todos iguais”.

Sabe aquela pergunta super clássica que diz assim: como podem filhos criados pelos mesmos pais serem tão diferentes? A resposta é simples: não somos todos iguais. A mãe é diferente do pai, que é diferente do filho 1, que é diferente do filho 2. E todo mundo também é diferente na relação com este ou com aquele. Os pais eram “assim” quando nasceu o primeiro filho. E “assado” quando nasceu o segundo. Todo mundo é de um jeito na quarta-feira. E de outro no domingo. É um grande nó de gente, dias, momentos, relações. Tudo junto. E, muitas vezes, separado.

Pela questão do meu filho, o tal cromossomo 21 a mais, mesmo sem querer, tornei-me uma ativista da inclusão. Uma ativista empírica. Não tenho nenhuma formação no assunto. Apenas observo, falo, escrevo, falo, escrevo, observo e falo pra caramba.

Mas, vou te dizer, se tem uma coisa que aprendi ao longo dos últimos cinco anos é que o mundo precisa mudar o foco do “somos todos iguais” para “cada um é do seu jeito”.

Há um tempo atrás, quando eu ainda entoava o tal mantra da pessoa “bem-intencionada-engajada-do-bem”, não fazia a menor ideia de que faltavam quatro ou cinco hífens: “-precisando-entender-mais-um-pouquinho”.

 

PS: A Revista Pais & Filhos, em nossa parceria de amor e admiração, já rendeu alguns momentos bem especiais. E este é mais um. Ser convidada para inaugurar esta nova coluna que tem tanto a ver com tudo que aprendi de uns anos para cá, afe, que delícia!

 

 

 

 

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