Sobre sumiços e línguas ferinas

O café da manhã na padaria é o símbolo da minha resistência materna. Insisto no programa que se tornou impossível com duas crianças pequenas. Quando um se aquieta, é o outro que sai correndo para cumprimentar um cachorro do outro lado da calçada. Ou para roubar o pão de queijo do vizinho depois de quase vomitar ao ver a porção que pedi pra gente. Mas eu vou. Sábado após sábado. Domingos, idem.

Três semanas atrás, fomos de novo. Eu, Mateus, Helena e Ju, a folguista. Na verdade, resisti muito à ideia da folguista. Mas, depois de voltar com tudo ao trabalho e com o marido viajando, pedi penico e ajuda.

Neste dia, até que não foi um café dos mais agitados. Comi enquanto a Ju administrava a função de manter as crianças longe de carros, cães bravos e pratos alheios. Depois, invertemos os papéis. E até que nos alimentamos.

Indo embora, a Helena parou já na fronteira da padaria para bater papo com mais um cachorro. Um boxer. Adoro boxers. Mateus se aproximou e completou a cena fofa. Lambidas na cara levaram a uma conversa simpática com os donos do Otto. Pois é, o boxer tinha o mesmo nome do nosso lhasa que não estava junto porque não tenho estrutura para administrar mais um ser vivo durante o café da manhã. Acho que foi esta coincidência que desencadeou o micro-papo.

Vinte segundos. Quatro ou cinco frases. E: cadê Helena?

Eu, Ju, Mateus, o casal e o cachorro, todos unidos em um círculo de simpatia, não vimos minha filha sumir.

Cadê Helena?

Esta pergunta, dita bem baixinho por mim, teve um efeito bombástico na padaria. Pessoas começaram a correr histéricas em sentidos aleatórios.

Já eu, bem, eu sabia exatamente onde ela estava. Conheço minha filha. Era claro que ela estava no estacionamento ao lado. Já estávamos no movimento vumbora. E, para ela, foi lógico cansar do papo sobre “nossa-que-coincidência-temos-um-cachorro-com-o-mesmo-nome” e se mandar.

Coloquei a pequena na cadeirinha e voltei à padoca para anunciar que estava tudo bem. Alívio geral.

O lance é que foi tudo muito rápido. Um segundo para ela sumir. Quinze segundos para encontrá-la no estacionamento esmurrando a porta do carro. Mas, ainda mais rápida foi a língua da mulher que encontrei com as mãos na cintura na porta da padaria.

“Você não sabe que não pode tirar o olho de uma criança nem por um segundo?”, perguntou a mulher-xícara.

Eu: Deixe-me adivinhar. Você não tem filhos, tem?

Rapidez por rapidez, também sou boa nisso.

 

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