Um textinho feliz

Neste 21 de março de 2018, tenho uma ótima notícia para dar: que maravilhoso momento para se ter um filho com síndrome de down. Sério. Dá só uma olhada em volta. Nossas carinhas de olhinhos amendoados estão por toda parte. Em alguns dos melhores comerciais do ano (brasileiros e estrangeiros), nos anúncios de moda, nas redes sociais.

Ah, por falar nisso, você acompanhou a revolta geral do pessoal no facebook protestando contra o post da desembargadora que ironiza uma professora com síndrome de down? Não quero nem entrar neste assunto porque decidi não dar visibilidade para maluco. Só quero dizer que foi bem interessante acompanhar pessoas que nem são próximas da causa exigindo uma retratação.

Mas, voltando ao assunto principal: cara, que momento bacana. Vejo crianças, jovens e adultos independentes, felizes, produzindo, realizando seus sonhos e defendendo-se pessoalmente de ataques e preconceitos. (Você leu a resposta certeira e elegante da professora Débora Seabra para a desembargadora?)

Claro que é preciso dar um desconto. Naturalmente, sou uma pessoa mais atenta ao assunto. Mas, mais do que nunca, vejo pessoas com síndrome de down querendo e conseguindo se expressar. Se há pouco tempo, muitas nem aprendiam a falar, hoje, elas dão opiniões e contam suas ideias. Não sei se é porque sempre trabalhei com as palavras, mas isso, para mim, é tão importante. E é tão, mas tão diferente de quando eu era criança e só tive a chance de conhecer uma única menina com síndrome de down, irmã de uma coleguinha, que vivia trancada em casa.

Nunca vou esquecer o jeitinho dela. Sabe bem o estereótipo do down carinhoso? Então. Nas poucas vezes em que estive na casa dela (era nítido que os pais não curtiam muito receber visitas), ela só queria dar abraços e beijos. Claro, né? Imagina quanta carência de contato físico, de gente. Aí, vejo meu Mateus, que leva uma vida igual à de qualquer criança de 5 anos e chego a ficar contente de perceber que ele prefere um chute na canela que um abraço de alguém que ele nunca viu na vida. Porque isso é ele. Não é a síndrome. Não é solidão. Não é carência. É ele e seu jeito bem parecido com o meu: “Ô, sai pra lá. Te conheço? “

Por tudo isso, acredite: este é um ótimo momento para se ter um filho com síndrome de down. Porque, como todas as outras mães, hoje nós também não temos a menor ideia do que será de nossos filhos. Sigo com medo. Mas um medo igual ao que sinto quando penso sobre a Helena, minha filha mais nova. Do futuro, da violência, de doenças, dela não ser feliz. E isso é bom. Mas muito bom mesmo.

PS: Texto escrito para o site Just Real Moms para celebrar o dia 21 de março, Dia Internacional da Síndrome de Down.


 

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